Jean Mitchel - A saga de um bluesman

by pedro 27/5/2008 11:15:00



Paris, 1950. Nasce Jean Eugène Mouchère. Ainda garoto, vivia apanhando dos colegas da escola por ter sangue de negro correndo nas veias. Foi diversas vezes expulso das aulas de canto porque a sua voz agredia os ouvidos da professora. Ficou detido durante 11 meses num reformatório por um crime que jura não ter cometido. Viveu nas ruas. Saltou muros de mansões para comer os restos deixados pelos cães. Caminhou durante noites inteiras para não morrer congelado.

Salvador, 1999. Uma menina de 13 anos morre afogada na Baía de Todos os Santos ao tentar chegar a um barco, junto com outras duas garotas de programa, para atender um grupo de clientes que aguardava seus serviços. Fiquei sabendo do episódio ao chegar ao Correio da Bahia, jornal em que trabalhava na época, e dar uma olhada nas manchetes do dia. Fiz o que tinha que fazer até a noite chegar, mas a história, o que a menina provavelmente sentiu quando a canoa alugada começou a afundar, seus possíveis sonhos e mágoas, sua vida vivida e não vivida, não saíam da minha cabeça. Como era uma sexta-feira, resolvi sair pra esquecer.
O destino foi um bar chamado Friday, no Pelourinho, no qual meu então namorado, Fernando Ferraz, me garantiu que estaria rolando um blues fora do comum. Depois de um tempinho de espera, aparece um cara cinquentão, com a maior cara de acabado, balbuciando umas coisas num português quase incompreensível e com uma voz sufocada que mal dava pra ouvir. Foi aí que a mágica aconteceu. Aquele que ninguém acreditava ser o vocalista da banda se transformou num autêntico bluesman, cantando com as vísceras “I'm goin' to kansas City / Kansas City here I come”, delirando no palco improvisado e arrancando aplausos fervorosos do público que ocupava a meia dúzia de mesas do local.

Paris, 1970. Num batismo de fogo ao som de Eddie Cochran, Jean Eugène torna-se Jean Mitchel. Deixou a escola pra trás, montou várias bandas de blues, fez turnês na Espanha e Itália, teve acesso a discos brasileiros e, pouco tempo depois, decidiu partir rumo ao “país tropical e bonito por natureza” incentivado pela célebre canção de Jorge Ben. Já no Rio de Janeiro, passou uma das fases mais difíceis de sua vida, retratada de forma romanceada no livro “Anjos Negros” que ele escreveu dentro de um presídio e o governo da Bahia, através do Programa Faz Cultura, lançou em 2001.

Salvador, 1990. Ao passar numa noite em frente à Cantina da Lua, no Pelourinho, Jean Mitchel ouve uma mistura de jazz e rock'n'roll que lhe chama a atenção e o faz duvidar de que está mesmo na terra do dendê. Foi ver do que se tratava e, mesmo preocupado com o fato de não cantar há quase duas décadas, juntou-se aos músicos responsáveis pelo som - o guitarrista italiano Gini Zambelli e o baixista venezuelano Keko Vilarroel - e pôs-se a evocar James Brown, Robert Johnson, Little Richard, Chuck Berry, Steve Wonder, Otis Reding, Jerry Lee Lewis, George Gershwing e Wilson Picket. Nascia ali a Jean Mitchel Blues Band, aplaudida de pé, inclusive, no Bourbon Street Music Club (São Paulo), por onde já passaram nomes como Buddy Guy, Ray Charles e B.B. King.

Salvador, 1999. Terminado o show, não resisto ao impulso de parabenizar o bluesman que tanto me impressionou. E foi aí que aconteceu uma daquelas coisas que fazem a gente se sentir, no mínimo, dentro de um filme de Almodóvar. Ele sussurrou, com uma expressão abatida, acinzentada, típica de uma fogueira quando se apaga: "Muito obrigado, mas hoje não foi dos meus melhores dias. Estou com o coração partido, destroçado mesmo. Perdi minha filha de 13 anos ontem. Está na capa de todos os jornais". E seguiu em direção ao balcão do bar, resignado, em busca de alguém que lhe pagasse uma cerveja ou lhe cedesse um cigarro.

Epílogo

Nessa época, Jean Michel morava no porão do Friday (“gentilmente cedido” pela dona do bar), alternava duas únicas mudas de roupa e sobrevivia com os trocados que recebia de couvert. Contava os dias pra chegar sexta-feira, pois era o único em que ele podia cantar e garantir o pão do resto da semana. Pra controlar a ansiedade e fazer o tempo passar mais rápido, pintava quadros abstratos com material doado por alguns artistas plásticos do Pelourinho, praticava meditação e fazia anotações para o seu próximo livro, “Luz nas Trevas”, ainda não publicado.

Com o friday cada vez mais às moscas (a vida cultural do Centro Histórico já dava seus primeiros sinais de decadência), a dona decidiu fechar o estabelecimento, não restando outra opção a Jean além de voltar a morar na rua. Pra piorar a situação, ele engravidou uma mulher viciada em crack, que sumia durante dias e deixava o bebê aos seus cuidados. Foi nesse contexto que Jean acabou preso, desta vez, por furto. Assim que deixou a penintenciária, tentou retomar o trabalho com a banda, mas as portas dos espaços alternativos de Salvador estavam ainda mais inacessíveis. Chegou, no entanto, a fazer uma curta temporada no bar Alphorria (Santo Antonio além do Carmo) no verão de 2006 e a participar de um festival de rock em Conceição do Almeida (cidadezinha com pouco mais de 20 mil habitantes, próxima a Santo Antonio de Jesus) realizado no início do ano passado.

Infelizmente, Jean faleceu no último dia 29, após penar durante quase um mês no leito 28 da enfermaria São Camilo do hospital Santo Antonio (das Obras Sociais Irmã Dulce). A causa da morte foi infeccção generalizada decorrente de hepatite alcoólica. Ele havia se entregado à bebida desde que passou a viver como sem-teto nas ruas do Centro Histórico de Salvador. O enterro foi uma das experiências mais deprimentes da minha vida. Só três pessoas compareceram: Gini Zambelli (guitarrista da banda de jean), Emmanuel Melo (produtor cultural responsável pelo último show de Jean, realizado na cidade de Conceição do Almeida-BA) e eu. Ninguém mais. Gini se encarregou das despesas funerárias como pôde. O cemitério escolhido foi o “Quinta dos Lázaros”, onde são enterrados os mais miseráveis de Salvador. Sua cova, um pequeno buraco na quadra São Paulo, coberto de terra e identificada apenas com o número 362 escrito numa cruz branca

Músicas on-line:
http://www.lastfm.com.br/music/Jean+Mitchell+Blues+Band

Videos:
http://www.youtube.com/watch?v=YCNLxasll4c
http://www.youtube.com/watch?v=regh0zMLXKE

Faixas do CD:
1. Bring it on home to me
2. Hoochie Coochie Man
3. I believe to my soul
4. I gotta move out of my neighborhood
5. Kansas City
6. Mustang Sally
7. Something you got
8. Summertime
9. Sunny
10. Unchain My Heart

Download do CD:
Mirror 1 : http://www.badongo.com/file/9180972
Mirror 2 : http://rapidshare.com/files/112141135/Jean_Mitchell_Blues_Band__em_est_dio__2000.rar
Mirror 3 : http://www.MegaShare.com/403875
Mirror 4 : http://www.megaupload.com/?d=BH6G7PEV

Texto por Silvana Malta (http://silvanamalta.blogspot.com)
Foto por Thiago Fernandes

Contribuição de Silvana Malta

5.0 ponto(s). Avaliado por 1 pessoas

  • Currently 5/5 Stars.
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Tags:

Downloads | Noticias

Posts relacionados

Comentários

Comentar


(Vai mostrar seu Gravatar)  

  Country flag





Live preview

6/1/2009 0:02:42

Powered by BlogEngine.NET 1.2.0.0
Theme by Mads Kristensen

100% Confraria do Blues

Confraria do Blues Blog hospedado gratuitamente pela Confraria do Blues.

Site 100% brasileiro com muito orgulho e com muito amor!!! Brasil

Entre em contato Send mail

Calendário

<<  janeiro 2009  >>
seteququsedo
2930311234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930311
2345678

Ver posts no calendário grande

Páginas

    Últimos posts

    Últimos comentários

    Aviso Legal

    As opniões expressas aqui são exclusivas de seus autores e não representão a opnião do portal Confraria do Blues.

    Confraria do Blues © Copyright 2009

    Sign in